Na vila de Garvão, até há relativamente
pouco tempo, meados dos anos de 1960, todos os anos,
era costume aparecer a “Dança”.
Era um costume muito antigo, que foi passando de geração
em geração até aos nossos dias,
que as pessoas da terra, espontaneamente, davam continuação,
geralmente pelo Carnaval.
Acredita-se que no passado a Dança tivesse surgido
por outras finalidades, mas que agora, desenquadrada
do modo de vida que lhe deu origem, tenha sobrevivido
como mero entretimento das populações.
Os dançarinos, ensaiavam meses antes da saída,
por vezes aproveitavam o ensaio para pisar algum solo
de terra batida dalguma casa que precisasse e que estivesse
em construção.
Os dançarinos, geralmente 6 ou 8 pares, trajavam-se
a rigor, vestiam roupas alegres, que enfeitavam com
fitas de pano e flores de papel às cores, usavam,
também, xaile e chapéu que forravam com
papel e flores coloridas.
Nos últimos tempos da sua saída dançavam
3 danças, a dança das Voltas, a dança
das Fitas ou do Mastro e a dança dos Arquinhos,
que é a única dança cantada, mas,
segundo informação dos mais idosos, sabe-se
que há cerca de 80 anos dançavam-se mais
duas danças: a dança das Espadas e a dança
dos Guizos.
Por vezes, na vila, aparecia mais do que uma “Dança”,
havendo notícia de num ano terem surgido 5 “Danças”.
Nos últimos tempos, eram acompanhadas, musicalmente,
ao som da flauta, e por vezes por acordeão e
rebeca (violino), eram também utilizadas pandeiretas,
pratos e bombos. Contudo, há conhecimento do
acompanhamento musical, em tempos mais recuados, ser
ao som de viola alentejana ou d’arame.
Os dançarinos corriam a vila, de rua em rua,
e a freguesia e os lugares mais próximos, de
monte em monte, em deambulações que por
vezes chegavama durar meses, prolongando-se até
Maio.
Se por uma questão de oportunidade procuravam
o Carnaval para saírem, porsua vez, depois de
estarem na rua a “Dança”, e a progressão
de terra em terra, prolongava-se por vários meses.
Durante esta “peregrinação”,
a dança era composta só por homens, mascarando-se,
alguns de mulher para formar o par.
Nos lugares onde actuavam, as pessoas costumavam oferecer-lhes,
essencialmente pães, linguiças e algum
dinheiro. Este tipo de dança, ao que parece,
não se restringia só a Garvão,
era também conhecido e dançado nas terras
vizinhas do interior alentejano, assim como são
amplamente conhecidas e dançadas, em vários
países da Europa.
Há quem as relacione com a antiguidade e os tempos
pré-históricos, com as danças da
fertilidade que se dançavam no início
de cada ciclo agrícola, a celebração
do renascer da vida, de um novo ciclo vegetal e animal,
depois dos meses das trevas, do inverno e das chuvas.
Os Romanos celebravam o novo ciclo de vida no 1º
de Maio com as festas das “Maias”.Segundo
Bob Pegg, in “Rites and Riots: folk customs of
Britain and Europe” (Blandford Press, 1981), ainda
hoje em Elstow, Bedford, em Inglaterra, realiza-se o
festival de Maio, assim como em Northfleet, Kent, ou
em Staford-on-Avon, Warwickshire, também em Inglaterra.
A dança dos Mastros dança-se ainda em
França, em Bayonne e, em Villafranca na Espanha,
entre vários outros países Europeus.
Talvez sejam raízes culturais comuns, antiquíssimas,
talvez de influência Celta, que sobreviveram até
aos nossos dias e se encontram espalhadas por uma boa
parte da Europa.
Os
Pauliteiros de Miranda e os Escoceses, ao usarem ambos
saias e tocarem gaita de foles, talvez não sejam
meras coincidências, e um bom exemplo, destas
reminiscências comuns do passado.
LETRA DA DANÇA DOS ARQUINHOS
(Única Dança cantada)
Ó moças façam arquinho
Ó moças façam arcada
Para passar o meu benzinho
Para passar a minha amada
Para passar a minha amada
Para passar o meu benzinho
Ó moças façam arcada
Ó moças façam arquinho
DANÇA DOS GUIZOS E DAS ESPADAS:
“MORRIS DANCE IN SOUTH PORTUGAL”
Uma vez, a Dança, foi dançar ao Lar deOurique,
onde se encontrava o Ti’ Chico Charrua, natural
de Garvão, e nessa altura,em 1995, com cerca
de 85 anos de idade, no fim da actuação,
disse-nos assim, mais ou menos, com estas palavras:
“Deviam ver quando eu era pequeno, isso é
que era dançar, a malta ia às arramadas,
e trazíamos os guizos das bestas, punham-se nas
pernas ou nos peitos e aquilo é que era dançar”.
Foi assim com esta introdução que o Ti’Charrua,
já falecido, pela publicação deste
livro, deu a conhecer a existência de outro tipo
de dança em Garvão de que não havia
ideia.
Ora, este tipo de dança, é conhecido,
na Inglaterra, como a dança dos “Morris”,
e para grande alegria dos folcloristas ingleses que
a julgavam perdida, foire descoberta nos anos de 1930,
numa aldeia do interior Inglês, segundo Bob Pegg,
Rites and Riots: folk customs of Britain and Europe;
Blandford Press, 1981.
Pois a dança que o Ti’ Charrua nos acabou
de informar é tal e qual a dança dos “Morris”
Ingleses, e era acompanhada por qualquer instrumento
que houvesse na altura, de preferência uma viola
d’arame ou uma rebeca (violino).
De facto, em Garvão, e nas terras vizinhas, só
os habitantes com 85 anos de idade, ou mais (em 1995),
é que se lembram desta dança e da dança
das espadas.
Assim foi com uma certa alegria que voltamos a Garvão,
não só com orgulho por termos levado um
pouco de alegria aos nossos conterrâneos alentejanos
do lar de Ourique, mas também pela informação
que o Ti’ Charrua nos acabou de dar.
Foto
da Dança por volta de 1960
Atrás da esquerda para a direita: Adriano Revés,
José António Correia, “Filhó”,
Sequeira, Carlos do Monte da Corcha na Flauta.
À frente da esquerda para a direita: “Pau
de Pinho”, “Paincho”, José
Anastácio, Ricardo Nicha.