DEPÓSITO VOTIVO DO SANTUÁRIO PRÉ-HISTÓRICO DE GARVÃO

No centro da vila de Garvão, na encosta do Castelo, descobriu-se uma enorme quantidade de peças em cerâmica, no decurso dos trabalhos de abertura de valas para o saneamento básico da Vila de Garvão.

Devido à enorme quantidade de cerâmica partida, foram imediatamente interrompidos os trabalhos de saneamento básico, e Manuel Zacarias, membro do Núcleo de Defesa do Património (antecessor da Associação cultural e Defesa do Património de Garvão) alertou de imediato, em finais de Maio de 1982, o Serviço Regional de Arqueologia do Sul na pessoa do seu director, Caetano de Mello Beirão.

Conjuntamente com Carlos Tavares da Silva, Joaquina Soares, Mário Varela Gomes e Rosa Varela Gomes, iniciaram os trabalhos logo em Junho desse ano, tendo sido publicado, posteriormente, o relatório da intervenção arqueológica, in “ Depósito Votivo da II idade do Ferro de Garvão, Notícia da primeira campanha de escavações, in “O Arqueólogo Português, série IV, volume 3”.

Chegou-se à conclusão de se tratar de um depósito votivo, da 2ª idade do ferro do século IV/III antes de Cristo, provavelmente o santuário de alguma confederação Celta que aqui teria o seu centro espiritual.

Segundo a notícia da primeira campanha, atrás mencionado, no Depósito Votivo armazenavam-se as oferendas atribuídas a uma divindade, ou divindades, cujo templo se situaria nas imediações do depósito, agora descoberto, servindo este como armazém das peças oferecidas por falta de espaço no próprio Templo.

O Templo, propriamente dito, ainda não foi localizado, mas tudo leva a crer que se situará nas imediações do depósito votivo, provavelmente no topo do Castelo.

As oferendas encontradas são maioritariamente de cerâmica, nomeadamente potes, pratos, tigelas, devidamente arrumados dentro de outras maiores, e o espaço entre eles devidamente preenchido com outras peças de cerâmica, incluindo pratos depostos de cutelo, denotando um claro cuidado no aproveitamento do espaço.

As oferendas incluíam, também, diversas peças em vidro, nomeadamente contas de colar e pequenas jarras. Do espólio em prata, contam-se, anéis, fíbulas, braceletes, címbalo, placas representando figuras femininas, o que se julga serem divindades.

Em ouro e prata foram encontradas várias peças nomeadamente placas com olhos gravados, e representações de figuras. Segundo Virgílio Hipólito Correia, in “De Ulisses a Viriato - o primeiro milénio a.c.”; Edição do Museu Nacional de Arqueologia, das oferendas encontradas contam-se também uma taça de cerâmica que tem a particularidade de ter na base uma inscrição na escrita primitiva da região, anterior às invasões Romanas, escrita essa que se convencionou chamarde “Escrita do Sudoeste”.

Sobre a divindade ou divindades adoradas no pressuposto santuário, que existiria nas proximidades do DepósitoVotivo, crê-se tratar-se de uma divindade indígena, portanto de origem local, embora não esteja desassociada de alguma influência ou assimilação oriental, de que as deusas “Tanit” ou “Ashtart” não seriam alheias.

As oferendas em placas de ouro com olhos gravados denotam claramente o cariz votivo de tais ofertas em prol de uma divindade relacionada com a visão ou com os olhos, oferendas essas que ainda hoje se perpetuam, passados mais de 2000 anos, na Igreja de Santa Luzia, uma das duas freguesias do extinto concelho de Garvão, do qual dista 5 Km. Tudo leva a crer, que tal devoção, possa ter dado o nome à povoação, conforme reza a moda “Santa Luzia dos Olhos....”.


SANTA LUZIA

O culto, a uma divindade relacionada com a vista em Garvão, deve ter dado o nome a Santa Luzia onde a tradição, ainda hoje, se mantém.

Santa Luzia é uma povoação acerca de 5 Km de Garvão. Era uma das duas freguesias do extinto Concelho, sendo, a outra, a própria vila de Garvão, sede do Concelho. Esta relação autárquica, e de proximidade, é muito mais profunda do que parece pois, este antigo culto, atribuível ao século IV/III antes de Cristo, perpetuou-se no tempo, e ainda hoje, na Igreja de Santa Luzia, certas pessoas com problemas na visão, oferecem placas de cera, com olhos desenhados, resemblando as placas de ouro e prata encontradas em Garvão, segundo Virgílio Hipólito Correia, in “De Ulisses a Viriato - oprimeiro milénio a.c.” Museu Nacional de Arqueologia.

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