AS ESTRADAS DE GARVÃO

Garvão é, devido aos seus vestigios arqueológicos, sua polarização de vias e outras mais circunstâncias, um dos mais importantes percursos do Alentejo desde a antiguidade.

Em Garvão, cruzavam-se e partiam várias estradas com ligação a todo o Sul e Norte do País. Aos caminhos mais antigos utilizados pelos primeiros povos, às veredas dos caminhantes e andantes, de cargas no lombo das bestas e carroças de tracção animal, sobrepuseram-se outros caminhos pelas sucessivas civilizações que se lhes seguiram e, inclusivamente, pela via férrea actual que em alguns locais aproveitou as vias romanas e pré-romanas.

Em Garvão cruzavam-se várias estradas: Canadas Reais (trajectos milenários para gados), Itinerários Celtas, Vias Romanas, Estradas Reais, “Semedariuns..”, vias Legionárias, Corredouras e outras vias que faziam a ligação por todo o Alentejo.


ESTRADA ROMANA

Durante a ocupação Romana, várias vias cruzavam o Alentejo. Umas sobrepondo-se sobre caminhos antigos, outras de novo criadas para satisfazer as necessidades comerciais e de ocupação militar.

Em Garvão, segundo as “Grandes Vias da Lusitânia” de Mário Saa, que se baseou no “itinerário de Antonino pio”, (descrição, do princípio da nossa Era, sobre as vias do Império Romano por Antonino Pio), cruzavam-se várias estradas romanas, uma delas a “Circunvalação dos Célticos”, que dava a volta completa ao Alentejo e Algarve, pelos lados, tocando as principais localidades.

Esta via, pelo lado do Atlântico, irradiava da cidade Romana de Esuri (actual Salir) para Ossonoba, Serra de Monchique, Silves e Garvão donde seguia depois para Évora. De Évora, baixava novamente para Beja, donde ia, pelo interior, por Mértola, embrenhando-se em seguida novamente no Algarve até Salir; este lanço da estrada era designado por «compendium».

Garvão era denominado pelos Romanos como ARANNI. Segundo as“Vias do Império Romano” a distânciade Ossonoba a Aranni (Garvão) são mpm LX (95km), (mpm, Millia Passum, medida itinerária romana,que valia mil passos, 1481,5 metros).

De Aranni a Serapia são XXXII milia passuum. Assim, a conversão de milhas em quilómetros dá-nos Aranni em Garvão, (num dos 20 códices lê-se Atani e Atanni), que é uma das mais notáveis mansões romanas do percurso no Alentejo.

A via de Antonino, a partir de Garvão para Évora, passa a Ponte Romana da Estação de Garvão, vai rumo à Igrejinhade São Pedro, Horta da Saúde e corre pelos lugares de Funcheira de Baixo, Monte Ruivo, Vale de Romeira, Boizona, ermida de São Romão de Panóias, Monte Alto, Torre Vã, Alvalade, Santa Ana do Roxo, Ermidas, Santa Margarida do Sado, Caneiras do Roxo, Vila Nova da Baronia, Viana do Alentejo e Évora.

Pode-se afirmar, com alguma razão, que a importância da vila de Garvão em tempos mais recuados, se deve às suas excelentes condições viáveis que permitiu o caminho norte/sul e a fixação dos povos.

A Estrada romana, de Garvão parao Algarve, passava a ponte romana da Estação de Garvão, ia junto ao Furadouro e metia-se pelas terras, do Sr. Chico Felix, direito aos Franciscos, local de grande concentração de vestígios Romanos que se crê ser de uma cidadela Romana, ia depois direito à Aldeia das Amoreiras, São Martinho das Amoreiras, Monte do Geraldo, Monte do Caldeirão, Corte de Brito, Corte de Lã, Stª Clara a Velha, Corte Sevilha, Nave Redonda, Monchique, Porto de Lagos donde como placa giratória comunicava com Silves, Portimão, Lagos e Faro.

A trajectória de, e para Garvão são de excelentes condições viáis; a natureza abrira esse caminho. São magníficos os tabuleiros ou plainos, as depressões, as planícies e várzeas das margens do rio Mira e do rio Sado conduzintes a Garvão.

O acostumado documentário romano, em destruições de paredes, telharia, epígrafes, etc., ladeia o caminho e é como que o sinal da sua trajectória.


ESTRADA REAL DO ALGARVE

A Estrada Real do Algarve aproveitou o traçado da Via Romana e Legionária, desde a Serra de Monchique a Garvão e para norte deste. A Estrada Real do Algarve tem o seu início em Lisboa e, era a ligação para o Algarve, com passagem obrigatória por Garvão.

Era a grande via do Sul, utilizada na Idade Média nas deslocações de norte ao sul e vice versa.

Diz o povo que era a estrada por onde a Rainha D. Maria ia para o Algarve, utilizada por D. Sebastião nas suas viagens ao sul e em direcção a Marrocos.

Era também um caminho utilizado pelas guerrilhas do Algarve no século XIX. De Garvão para Lisboa ia-se por Alcácer do Sal, passando logo a seguir a Garvão, pela Igrejinha de São Pedro (onde os mencionados guerrilheiros do Algarve procuravam abrigo), Horta da Saúde, Funcheira de Baixo, Monte Ruivo do Ameixial (aqui separa-se do antigo caminho romano), e busca Panoias, onde transpõe a Ribeira de São Romão (Rio Sado) no Porto da Crata, a 6 km de Garvão segue dpois para o Monte da Alfarrobeira, Montinho, Reguengo, aldeiade A dos Delbas, Monte da Estrada, Messejana, Rio de Moinhos, São João dos Negrilhos, Figueira de Cavaleiros, Alcácerdo Sal, Setúbal e Lisboa.

De Garvão para sul o traçado da Estrada Real aproveitou e confunde-se com o caminho da Estrada Romana atrás descrito. O piso da Estrada Real é nu e sem qualquer artifício. Até Santa Clara, a estrada continua sem possibilidade de outro rumo que não seja o de Garvão; são várzeas sumamente viáveis ladeadas de outeiros inviáveis.

Até há relativamente pouco tempo,os Almocreves e outros preferiam a Estrada Real à Nacional, pois, apesar do mau estado do piso, representa um encurtamento na distância e, de Garvão era a única ligação para a Aldeia e São Martinho das Amoreiras, antes da construção da estrada alcatroada na década de 1970.

Os almocreves nas suas andanças pelas propriedades da região utilizavam também a estrada do Monte Zuzarte onde, ainda hoje, junto à estrada existe uma cruz, em pedra, de que se desconhece a origem; esta estrada seguia depois para as propriedades do vale de Mú e São Barão.

Na propriedade do São Barão existe, ainda hoje, os restos de uma Igreja, denominada, também, de São Barão, local de festa e romaria, ainda no primeiro quartel do século XX, bastante frequentada pelas gentes da região.

Uma variante desta estrada, talvez no caminho para Ourique, passava junto ao Monte São Pedro, onde ainda é visível as ruínas de uma igreja


OS CAMINHOS DE D. SEBASTIÃO

Diz a tradição popular que el-rei D. Sebastião passou por Garvão.

Tal passagem seria um acontecimento notável para a época que se perpetuaria na memória popular. De facto, pelos relatos das viagens de D. Sebastião no Alentejo pelo cronista João Cascão, ficamos a saber quais os percursos e as demoras de el-rei D. Sebastião nesta região, pelo menos no que diz respeito à viagem maisdetalhada, a de Janeiro de 1573.

Contudo, outras viagens houve pelo Alentejo, como as viagens de Setembro de 1573 ou Novembro de 1574 em que há notícia das viagens de D. Sebastião por aqui, sem contudo precisar onde.

Em qualquer uma destas viagens um dos percursos normais era a Estrada Real do Algarve com passagem por Garvão.


ESTRADA PARA BEJA
No caminho da Estrada Real, ou Romana, no porto da Crata desprendia-se, uma outra estrada, para a direita que ia directamente de Garvão para Beja, em parte utilizada pelo Caminho de Ferro, pela herdade da Quinta Nova, Aldeia daConceição e Alcarias, Monte da Carregueira (Estação de Castro Verde) e daí para Beja.


ESTRADA PRÉ-ROMANA

Existia uma outra Estrada do Algarve, mais antiga, prévia à ocupação Romana,de norte para sul pela margem esquerda do Sado, que transpunha o Rio em Alcácer do Sal. Depois seguia para Grândola, Canal, Mina da Caveira (importantes minas Romanas, cujo minério seguia para Santa Margarida, onde era tratado e seguia em embarcações pelo rio Sado), Brunheira, Loizal Novo, Faleiros e Cartaxo, Mal Assentada, Balça, Ameira onde passava a Ribeira de Campilhas e Alvalade. De todos os modos, Garvão era lugar obrigatório de convergência.


ESTRADA ROMANA DE SALIR A SANTIAGODO CACÉM POR GARVÃO

Em Garvão cruzava outra Estrada Romana, que ligava Santiago do Cacém a Salir, no Algarve, e cortava no sentido Noroeste para Sueste a Estrada Romana de circunvalação do Alentejo e Algarve.

De Garvão a Santiago do Cacém numa extensão de XXXII milia passuum e, segundo “As Grandes Vias da Lusitânia” de Mário Saa, “...O seu início em Garvão é um sulco profundo, transversal às ribeiras de Garvão e Arzil, e imediatamente abaixo do Castelo, sulco que ali é conhecido por Ferradouro, corruptela de Furadouro”.

Entrava depois na Estação deGarvão, onde passava a Ribeira do Arzil pela ponte Romana, seguia pelas herdades do Arzil, Crimeia, Corte Preta, e aldeias de Santa Luzia, Vale Alconde, Colos, Vale de Santiago e entrava em Santiago do Cacém, pelo sítio de chã salgada, tocando o que resta do recinto de jogos da Urbe Romana.

De Garvão para sul, o traçado divergia da Estrada Romana e Real, enquanto estas iam pelos Franciscos e aldeia das Amoreiras. A estrada deSantiago do Cacém para Salir ia pela Monchica e Saraiva direito à Srª da Cola. Depois de passar o Furadouro, atravessava a ribeira de Garvão, junto ao Poço Novo; a saída da Vila fazia-se pelo Curral dos Bois e apontava direito à propriedade do Pouco Tempo, Monchica, Saraiva, Lagoa Seca, Vale Garvão, Portela, Monte Queimado, Marchicão (já ao pé do Santuário da Srª da Cola), Sr.ª da Cola, Santana da Serra e Salir. Em Santana da Serra bifurcava uma outra estrada directa de Salir a Silves.


“Semedarium qui venit de Garvam et vadit al Algarbium” pela Srª da Cola

O “Semedarium qui venit de Garvam et vadit al Algarbium”, era a continuação directa da estrada de Santiago do Cacém. Por Semedarium, “Semedeiro”, não se entenda caminho de só menos importância, facto que não se coaduna certamente com o longo curso de 80 Km de Garvão a Salir. Semedarium derivado latim semitas de que se fez senda, sendeiro, sendim, etc.

A menção ao “Semedarium qui venitde Garvam et vadit al Algarbium” surge, pela primeira vez, nuns documentos de1250 e 1260 referentes ao extinto concelho medieval de Marachique, vulgarmente identificado com o Castro da Srª da Cola, nomeadamente pelo Arqueólogo Abel Viana que na sua monografia sobre a Cola, faz alusão à existência das ribeiras e dos lugares de Marchicão e Marchique junto ao Santuário da Cola.

As extremas deste Concelho Medieval, abrangiam partes dos actuais Concelhos de Almodôvar e Ourique e, que em parte servia de estremadura entre o Alentejo e o Algarve. No documento de 1250 el-rei D.Afonso III doou este concelho, com os limites que então lhes assinalou, aos seus moradores. No documento ou doação de 1260,os moradores fazem doação a um dos seus munícipes, D. Estevam Anes, de todo o território que el-rei D. Afonso III lhes havia doado e constituía o total concelho de Marachique.


CANADA REAL

As “Canadas” eram vias próprias para as deslocações dos rebanhos de gado, de umas pastagens e regiões para outras.

Eram trajectórias seculares, e até milenárias de pastores, como que direcções ideais nos seus caminhos da transumância.

Apesar das Canadas serem vias próprias e independentes das outras estradas, a Canada que servia Garvão identifica-se em grande parte com a Estrada Real do Algarve.

Não deixará de ter importância a Feira anual de Garvão no fim do ciclo Primaveril, como polo comercial e social dos pastores que traziam os seus rebanhos, inclusivamente da Serra da Estrela e até de Espanha, para as pastagens do Campo Branco e do Campo de Ourique.


CORR EDOURAS

As Corredoras ou estradas legionárias eram vias militares romanas que atravessavam, não só o Alentejo e a Península Ibérica, como também todo o Império Romano.

Eram vias próprias para uma mais rápida deslocação das tropas, quando surgia algum foco de revolta nativa contra os invasores e ocupantes Romanos.

É comum ainda encontrar, na topografia local, nome de sítios ou lugares com origem em eventos ou locais antigos; o Monte da Corredoura, situado a poucos km de Garvão, na estrada para Ourique, poderá bem ser um bom exemplo dessas reminiscências do passado.

A Corredoura é também identificada com a venda de gado na feira de Garvão; o local onde os almocreves, ciganos e demais comerciantes se juntam para negociar, mulas, machos, cavalos ou éguas, burros ou burras é denominado por“Corredoura”.


IGREJA DA SRA DA COLA

No Santuário do Castro da Cola todos os anos em Setembro realiza-se uma romaria; as origens de tal costume perdem-se no tempo. Contudo, no Castro da Cola, foi encontrado vestígios de ocupação desde a pré-história até ao século XIV, com uma forte implantação mourisca.

Tudo leva a crer que o actual culto à Sr.ª da Cola seja as reminiscências de um culto pré-histórico, praticado pela população local, que deveria ser numerosa na altura, tendo em conta as necrópoles, antas e outros testemunhos desse passado, que têm sido encontrados na região.

Com a chegada do Cristianismo era costume a nova religião, conquistadora, assimilar e moldar a seu proveito os cultos indígenas locais, como possivelmente aconteceu no Castro da Cola.

Essas religiões, pré-históricas, tinham um grande contacto com a natureza e, na ribeira do Marchicão existe um pego fundo, a que chamam do Sino e se atribuíam propriedades tramatúrgicas, onde os crentes se banhavam nas Romarias ao Santuário, até aos meados dos anos 60 doséculo passado, (século XX).


DIVINDADES INDÍGENAS

Quando os romanos introduziram o Cristianismo na Península, julgaram, pela ausência de templos, que os povos autóctones desconheciam qualquer forma de religiosidade.

Contudo, tal veio a desvanecer-se, quando os Romanos começaram a compreender melhor os povos, agora, por eles ocupados, e deram conta que no fundo havia uma religiosidade politeísta (acreditavam em vários deuses), idêntica à sua, porque tiveram as mesmas origens indo-europeias.

De facto, os Romanos encontraram um fundo religioso com váriosséculos, adorando vários deuses e cultos, constituído, basicamente, por divindades, aquáticas, salutíferas, infernais e protectoras, embora algumas só adoradas localmente.

A religiosidade, dos povos autóctones, consagrava-se, assim, na adoração de locais campestres, fontes e rios, adorando e respeitando o espaço tribal, como parece ser ocaso do Pego do Sino na Srª da Cola caso do Pego do Sino na Srª da Cola.


CASTRO DA COLA AS LÁPIDES EPIGRAFADAS E O CONCELHO DE MARACHIQUE.

Existe em toda esta região, em torno do Castro da Cola, vestígios de uma grande actividade humana, desde os povoados e monumentos funerários pré-históricos ao extinto Concelho de Marachique dos primeiros séculos da Nacionalidade.

Tem surgido, também nesta zona, num período anterior às invasões romanas, uma grande variedade de pedras tumulares epigrafadas, com u
ma forma de escrita, conhecida por “Escrita doSudoeste”, de influência oriental, e adaptada às línguas nativas locais de origem Ibérica.

Estas influências orientais devem-se aos mercadores Fenícios e outros, que demandavam estas terras em busca de produtos locaisque pudessem comercializar, produtos agro-pastoris ou de extracçãode minérios como exemplo, criando inclusivamente feitorias, maisou menos permanentes, de onde emanaram, de uma forma geral
a sua cultura e a sua escrita em particular.

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