A Feira de Garvão, realiza-se todos os anos,
nos dias 9 e 10 de Maio, sendo uma das alturas do ano
em que a vila mais fervilha de alegria e de intensa
actividade, que se prolonga por vários dias.
É pela Feira, na entrada da primavera, que a
população aproveita para as limpezas e
caiações, para receber as visitas e familiares
que vêm de visita para a Feira.
A ida à Feira, até à década
de 60, meados dos anos 70 do século XX, era quase
um ritual, era a preparação de um longo
ano agrícola, vendia-se o que se tinha para vender,
comprava-se o que se tinha para comprar, de modo a que
desse para o ano inteiro; era lá que se matavam
saudades, que se reencontravam com a família
mais afastada, que confraternizavam, que se trocavam
conversas, e actualizavam-se as novidades.
Havia na Feira utensílios para todos os gostos
e feitios, desde os aguadeiros aos homens das quadras,
o carrocel, figos e amêndoas algarvias, panos
grossos e finos de toda a espécie, quartas, potes,
alguidares e outros utensílios de barro, era
toda ela uma variedade de produtos locais e regionais,
manufacturados artesanalmente, onde não faltavam
o albardeiro, o latoeiro, o abegão, o cadeireiro
ou o ourives.
Vinham tendeiros de todo o lado, algumas famílias
há já várias gerações,
era ponto de honra entre eles respeitarem o espaço
de uns anos para os outros, coisa que por vezes não
acontecia, gerando-se um pandemónio dos diabos
só acalmando depois de uma boa discussão,
bem acalorada.
A Feira do gado era geralmente nos dias anteriores a
9 de Maio, onde chegavam toda a espécie de gado:
rebanhos de ovelhas, manadas de vacas assim como caprinos,
toda aespecie de muares; burros, mulas ou bestas, cavalos
e éguas, trazidas pelos lavradores da região,
que num acérrimo despique com os negociantes
de gado e ciganos faziam da Feira de Garvão uma
das mais importantes desta parte do Alentejo; não
é sem justa causa, que a uma variedade de vacas
se deu o nome de Garvanesas, (a desenvolver no capítulo
seguinte).
Apesar de se desconhecer aantiguidade da Feira de Garvão,
esta terá surgido da necessidade dos povos vizinhos
ali se juntarem para trocarem os seus produtos.
As primeiras tentativas de regulamentar as Feiras, pelos
primeiros reis, mais não foi, do que regularizar
uma actividade comercial que já vinha de longe.
Dos tempos da Monarquia, há notícia de
grandes rebanhos de gado que desciam dos Montes Hermínios,
do Alto Alentejo e de Espanha e vinham pastar para o
Campo Branco Alentejano.
O Campo Branco, era toda aquela região plana
e esbranquiçada, a sul de Entradas, compreendendo
numa linha imaginária, Aljustrel, Messejana,
Panóias, Garvão, Ourique, Rosário,
Santa Bárbara de Padrões, Alcaria Ruiva
e outras.
Era na Vila de Entradas, situada na rota normal dos
rebanhos que se fazia a entrada nas pastagens, daí
o seu nome.
Era
aqui o termo da longa caminhada, onde os pastores podiam
exclamar: “Já cá estamos”!
Depois de instalados, os rebanhose os criadores, pelo
Campo Branco, era na Feira de Garvão que poderiam
comercializar os rebanhos, socializarem e aviarem-se
das necessidades, etc.
Para a resolução das contendas surgidas
entre os criadores, ou o pagamento das rendas e impostos
das pastagens, era em Messejana no tribunal especial
“Dos Verdes Montados”, com ouvidor e ministros
próprios.
Era em Garvão que se movimentavam os marchantes
que abasteciam de carne a cidade de Lisboa. A este propósito,
encontra-se uma informação que nos diz:
“Há uma feira, cujo nome vem muitas vezes
nas petições, é a de Garvão...
trata-se de uma feira a sul da província; Garvão
é verdadeiramente a capital regional do comércio
de animais”.
“Os
marchantes que compravam carne para fornecer a cidade
de Lisboa, tentavam fugir ao pagamento da sisa. Por
isso, um inquérito preparado pelo corregedor
em 1794, tem por origem a actividade de uma companhia
criada em Lisboa e por três representantes desta
sociedade, ao comprarem animais em Garvão, negarem-se
a pagar a sisa, o que motivou um protesto do arrematador
das sisas de Garvão, Miguel Vaz Coelho, morador
na quinta do Valadão.
“VIRIATO”
Dizem os antigos que a feira de Garvão é
tão antiga que até Viriato, o célebre
chefe lusitano da nossa história, que lutou contra
os Romanos, esteve em Garvão.
Viriato, era pastor nos montes Hermínios, e deslocava-se
com os rebanhos para novas pastagens no sul. Os Montes
Hermínios foram durante muito tempo associados
à Serra da Estrela, contudo tem-se hoje a noção
de que seriam mais a sul.
Viriato casou com a filha de Astolpas, um rico mercador
de Èvora. No “ALBUM ALENTEJANO”,
uma edição do principio do séculoXX,
na página 183, consta o seguinte: “Anteriormente
à batalha de Ourique e num sítio chamado
«Cidade da Cola», a sudoeste de Ourique
à distância de dez quilómetros,
o grande cabecilha lusitano, Viriato, que tão
denotadamente se bateu pela liberdade da sua terra,
reuniu os guerreiros que comandava e, alta noite, desceu
com eles a escadaria secreta que vai ter à ribeira
do Mariscão (hoje Marchicão), e de subito
caiu sobre o exército comandado por Claudio Unimano,
causando-lhe incalculável mo-tandade.
Foi neste sítio que apareceu a «cerva branca»
ao mesmo Viriato, quando este apascentava o rebanho
com que descera dos Montes Hermínios.
TERRADO
O Terrado da Feira, era um imposto a pagar pelos marchantes
e feirantes às autoridades da terra para poderem
vender os seus produtos.
Em Garvão, esse Terrado era pago à Santa
Casa da Misericórdia de Garvão que instituía
os respectivos valores a serem pagos pelos mercadores
e respectivas profissões, conforme consta na
página 5, frente e verso, do Livro da Santa Casa
da Misericórdia de Garvão referente ao
ano de 1735.
VALORIZAR A FEIRA DE GARVÃO
NUNO FAUSTINO, CARLOS ALVES E CLÁUDIO MACHADO
As alterações verificadas na sociedade
nas últimas 3 décadas, afectou profundamente
a vida das comunidades rurais em que a Feira de Garvão
está inseridae lhe deu vida.
A “evolução” trazida pelos
modernos meios de transporte a motor e comunicações,
a introdução dos plásticos, e outras
novidades, mudou em muito os hábitos e costumes
das comunidades rurais.
Tem havido da parte da autarquia local, desde 1995 para
cá, um esforço no sentido de valorizar
a feira, introduzindo exposições e outras
actividades lúdicas, procurando dar-lhe algum
ânimo, e o sopro de vida necessário, para
que esta feira secular progrida e seja uma realidade
para as gerações vindouras.
Contudo a preocupação em manter viva esta
tradição, não deve ser só
introduzindo novos conceitos de Feira, alheios e até
mesmo antagónicos à manutenção
de um hábito e costume secular.
Quando em 1995, Nuno Faustino e Carlos Alves, dois jovens
agricultores da nossa terra, propuseram à autarquia
uma exposição agro-pecuária, não
lhes passava pela cabeça, com certeza, o aniquilamento
da tradicional feira de Garvão, como aconteceu
em Beja com a feira da Primavera, totalmente absorvida
pela Ovibeja, apesar do alerta para esse perigo, por
Cláudio Machado, então assessor do presidente
da Câmara, e coordenar da exposição
Agro-pecuária da Feira de Carvão, proposto
por uma comissão de agricultores, criada para
o efeito, e pela Associação Defesa do
Património de Garvão, convidados pela
autarquia para integrarem a organização
da exposição.
A valorização da feira pode e deve respeitar
o conceito tradicional de Feira; é preciso respeitar
a originalidade, dignificar as memórias locais,
a especificidade da Feira de Garvão, e não
transformá-la em mais uma exposição
igual a tantas outras pelo país fora. Nada melhor
para exemplificar esta situação do que
um desabafo duma senhora da terra, “...ai minha
bela feira de Garvão, quiseram-te igualar às
outras e afinal acabaram contigo...”.
É preciso diligenciar com a mesma vontade, com
que se apoia as novas introduções efectuadas
na Feira depois de 1995, na manutenção
dos feirantes e tendeiros tradicionais e que não
se englobam nesta nova realidade de exposições.
Espectáculos? Touradas? Música Pimba?
Talvez? Porque não? Mas também os albardeiros,
os cadeireiros, os oleiros, saber porque é que
o Carrossel não veio este ano, ou os artigos
de barro ou vime, saber porque é que aquela senhora
dos figos Algarvios deixou de vir à feira, etc,
etc, etc.
Promover cantares à despique e à desgarrada
ou ao Baldão acompanhados po rviola d’arame
(Alentejana ou Campaniça), não ocupar
lugares tradicionalmente reservados à Feira tradicional
como a “Corredoura” que levou fim, são
outras vertentes da Feira a ter em consideração,
assim como respeitar o espaço tradicional de
assentamento Cigano.
“CORREDOURA”
Último tendeiro no tradicional sítio da
“Corredoura” que levou fim, depois da introdução
da Exposição Agro- Pecuária em
1995 ter ocupado este espaço e acabado com uma
tradição de séculos.
Aqui vários tendeiros vendiam de tudo; desde
chocalhos, esquilas e guizos, correias, arreatas e cabrestos,
selas e selins, albardas e molins, para bem ataviar
uma Égua, Cavalo, Burro ou Burra, Mulas e Machos,
Vacas, ovelhas e Cabras.
Era na“Corredoura” que os negociantes e
Ciganos corriam as Bestas que tentavam vender.
A FEIRA DE GARVÃO OS CANTARES A DESPIQUE E À
DESGARRADA, A VIOLA D´ARAME E O “TIO”
MANÉL DA VACA GORDA
A Feira de Garvão, até aos anos 50, talvez
ainda nos princípios de 60, era local de encontro
de uma “raça” de músicos ambulantes
que desapareceu com o tempo.
Era o tempo do Tio Manel da Vaca Gorda, da Zefinha de
Portel, do Ti´Midio, do Norberto Gateira e outros.
Corriam o Alentejo de terra em terra, por rotas diferentes,
cruzando-se, com paragem obrigatória nos dias
de feira onde se juntavam para disputar acérrimos
“cantes à despique”, acompanhados
à viola, para pasmo da assistência que
os acompanhava e incentivava.
O Tio Manel da Vaca Gorda, ainda na década de
60 aparecia em Garvão, mesmo fora dos dias de
feira, até que deixou de aparecer, presumindo-se
que tenha morrido por esta altura, andava de burro e
corria principalmente a Serra algarvia para os lados
de Monchique e o extremo sul dos Concelhos de Ourique
e Odemira, havendo contudo a noticia de ter sido visto
também para os lados do Pinhal Novo.
O “TIO” MANUEL BENTO” Vive presentemente
na Funcheira, freguesia de Garvão, para onde
se mudou depois da Aldeia Nova, terra que o viu nascer,
ter ficado debaixo de água da albufeira da barragem
da Rocha.
Quando em 1994, a Associação Cultural
e Defesa do Património de Garvão entrevistou
o “Tio” Manuel Bento para o nº 0 do
Jornal de Garvão, já era uma pessoa conhecida,
solicitado para tocar em vários sítios,
levando à recuperação e divulgação
da viola Alentejana.
Era um dos últimos sobreviventes de uma arte
que esteve à beira da extinção,
não fosse o pronto apoio prestado por algumas
entidades, nomeadamente o livro de José Alberto
Sardinha sobre a Viola Campaniça e a vasta divulgação
feita aos microfones da Rádio Castrense pelo
Dr. José Colaço.
VIOLA ALENTEJANA DE ARAME OU CAMPANIÇA
Antigamente, até aos anos 60, o instrumento era
designado por viola, e por vezes por viola d´arame,
quando era preciso diferenciá-la de outro instrumento
parecido, apesar de hoje ser, também, conhecido
por viola Campaniça, devido à divulgação
que este instrumento tem merecido nas últimas
décadas.
O termo, viola Campaniça, era dado “pelos
de Beja” de forma depreciativa a designar as violas
rudemente afeiçoadas que se faziam e tocavam
nesta zona do Baixo Alentejo.
Acredita-se, contudo, que em anos mais recuados a implantação
da viola d´arame fosse mais ampla.
“TIO”
ÁLVARO PEDRO
O ÚLTIMO SOBREVIVENTE DE UMA TRADIÇÃO
SECULAR
Álvaro Pedro, nascido ecriado na Aldeia dos Fernandes,
a 20 de Abril de 1926.
“Vim para Garvão guardar gado, coisa que
faço desde os meus 7anos, ... há azar!?”,
responde à pergunta, de onde reside e remata
logo, à laia de cautela, ... “o meu padrinho
era o Sr Manuel Cortes, dono da Cabreira, ... ouviu
?
”À pergunta, se conheceu mais alguém
como ele,fica um ped aço a olha rpasmado mas
depressa se recompõe e remata... Conheci-os todos,
o meu pai era albardeiro e cantou com o António
Aleixo em Loulé.
Se conhecia a Zefinha de Portel: “O Quê?
A Zefinha de Portel, ai a Zéfinha de Portel,
era magana, era pior “cá” Tia Mariana
da Estação de Ourique”.
Há quantos anos faz quadras e vende? Responde:
“Ohhh ... isso é coisa muito antiga, há
ca tempos qu’eu não vejo mais ninguém,
sou só eu agora, já morreram todos, mas
olhe que aí hà una anos éramos
muitos”.
O “Tio” Álvaro Pedro é o último
sobrevivente de uma tradição de poetas
e fazedores de quadras ambulantes, bastantes populares
nas feiras da região até à década
de 1960, talvez uma reminiscência da tradição
Moura dos Contadores de Historias.
Corriam as vilas e as feiras de uma certa região,
trazendo e levando as “novas”, de umas terras
para as outras, com as suas quadras, por vezes de uma
forma jocosa outras de forma séria e “grave”,
conforme o sentimento que queriam transmitir à
população, alegrando e animando as gentes
por onde passavam, quebrando a monotomia e a rotina
diária.
CIGANOS
“UMA FEIRA SEM CIGANOS NÃO É FEIRA,
NÃO É NADA"
Os Ciganos faziam as delícias da Feira, “diz
o povo que uma Feira sem Ciganos não é
nada, e é verdade”, era vê-los a
dirigirem-se, por vezes meses antes da Feira, de burro
ou carroça pelas estradas fora para Garvão,
onde chegavam, sem primeiro, antes, se terem envolvido
nalguma disputa ou contenda por um pedaço de
palha ou por alguma erva ceifada, sem autorização
do dono, para dar comer ao gado, características
próprias destes “filhos do vento”,
como alguém já lhes chamou, que por vezes
criam e provocam a animosidade da população.
Arreavam tenda nos eucaliptos junto à Feira,
e aí montavam arraial, onde cantavam e dançavam
ao som de violas e música cigana pelas noites
fora, por vezes transportavam, toda esta alegria, para
o próprio recinto da Feira, principalmente pelos
mais novos, que ao som da musica do Carrossel, ou outra,
não se eximiam em mostrar os seus dotes de dançarinos,
arrastando para esta dança alguns elementos da
população.
Agora, mandaram-nos assentar arraial mais longe da Feira,
parece que a sua presença incomóda muita
gente.
A “corredoura”, local onde se corria (experimentava)
as bestas ou cavalos, era só deles, no meio de
um enorme pó e do calor de Maio, corriam com
as bestas para trás e diante tentando evidenciar
alguma característica do bicho que queriam vender,
sempre falando alto e com um alarido enorme trocavam
e destrocavam o mesmo burro ou mula duas ou três
vezes no mesmo dia.
As famílias de Ciganos, de várias gerações,
que costumam vir à Feira de Garvão, há
muito que são conhecidas da população,
principalmente dos negociantes, arte em que se tornaram
mestres na sua vida de nómadas, os últimos
nómadas do continente, que apesar de todas as
vicissitudes da vida, teimam em manter o seu estilo
de vida próprio, longe de influências externas.