JOSÉ
JÚLIO DA COSTA
José Júlio da Costa - O homem natural
de Garvão que matou o Presidente da República,
Sidónio Pais.
José Júlio da Costa nasceu em Garvão,
no dia 14 de Outubro de 1893, no seio de uma família
de proprietários, considerada abastada para a
época.
Os
pais, também de Garvão, eram Eduardo Brito
Júlio e Maria Gertrudes da Costa Júlio,
e era casado com Maria do Rosário Pereira Costa
de quem não houve filhos.
Era
o segundo filho de sete irmãos, um dos quais,
“Senhor Celestino da Costa”, como era conhecido,
era esposo da professora D. Ilda, e foi o primeiro presidente
da Junta de Freguesia de Garvão depois do 25
de Abril.
José Júlio da Costa, assentou praça
,no exército, como voluntário, aos 16
anos em 21 de Maio de 1910.
Combateu na Rotunda, pela implantação
da República, nos dias 4 e 5 de Outubro desse
ano. Ofereceu-se como voluntário paraTimor, Moçambique
e Angola, onde recebeu um louvor em 27 de Dezembrode
1914.
Deixou o exército a 11 de Abril de1916 com o
posto de Segundo Sargento. Pela Grande Guerra, (1914/18),
ofereceu-se como voluntário para combater a Alemanha,
o que não conseguiu.
José Júlio da Costa, nas entrevistas que
deu, antes da sua morte, mostra claramente o seu descontentamento
generalizado com a política seguida por Sidónio
Pais, a quem acusa de traição aos ideais
da revolução Republicana de 1910, por
ser adepto da Alemanha e de alinhar ao lado dos Monárquicos
e Clero, inimigos da República.
De facto, Sidónio Pais governou em ditadura,
pela política que implementou. Pode-se afirmar
que foi o percursor de regime fascista nascido a 28
de Maio de 1926, que levou Salazar ao poder.
Sidónio Pais, sublevou as instituições
democráticas nascidas com a revolução
republicana e fez-se “coroar” presidente
à revelia do Congresso e da Constituição
Portuguesa.
No seu breve ano de governação foi suficientemente
demonstrativo do cariz fascisante da sua política
ditatorial. Liquidou o sistema parlamentar democrático,
impôs a censura à Imprensa, centralizou
os poderes, criou a polícia preventiva, rearmou
a polícia pública, empregou uma enorme
demagogia nos seus discursos políticos, transferiu
para Lisboa as unidades militares da sua confiança,
atulhou as prisões com milhares de adversários
republicanos; num ano de governação passaram
pelas prisões de África e do país
cerca de 20 mil pessoas.
José Júlio da Costa acusa também
Sidónio Pais de ter abandonado, à sua
sorte, o Corpo Expedicionário Português
que combatia nas Flandres em França, na Grande
Guerra de 1914-18, provocando a morte a cerca de 3000
soldados, sargentos e oficiais.
Tudo isto reforçou a convicção
em abater Sidónio Pais, já ciente na sua
mente, depois da traição perpetuada nos
trabalhadores rurais do Vale de Santiago, facto que
viria a consumar no dia 14 de Dezembro de 1918, na Estação
do Rossio em Lisboa, com 25 anos de idade.
Depois de ter morto Sidónio Pais, José
Júlio da Costa, foi preso e brutalmente agredido,
logo ali no local, e levado posteriormente para a Escola
de Guerra onde sofreu novos suplícios no seu
corpo já ensanguentado.
Preso, José Júlio da Costa sofreu todo
o tipo de agressões, incluindo disparos, a meio
da noite, para dentro da cela.
Os
seus próprios familiares,sem terem nada a ver
com o caso, foram molestados pelas autoridades, inclusivamente
a sua mãe e a sua esposa, Rosária Pereira
Neves Costa, foram presas nos calabouços do governo
civil, onde ficaram incomunicáveis (Jornal “O
SÉCULO”página 3 de 18 de Dezembro
de 1918).
Ainda
hoje, algumas pessoas da vila falam de tal, e ainda
se lembram do estado que a D. Maria Gestrudes chegava
à vila depois de ir ver o filho a Lisboa.
A mãe, antes de morrer, só pediu uma coisa:
que levasse consigo o retrato do filho quando fosse
enterrada.
José Júlio da Costa morreu a 16 de Março
de 1946, no Hospital psiquiátrico Miguel Bombarda,
em Lisboa, com 52 anos de idade, com a razão
toldada por 28 anos de prisão sem nunca ter sido
julgado, completamente esquecido nas prisões
do regime.
A GREVE GERAL DE 1818 E AS OCUPAÇÕES DE
TERRAS EM VALE DE SANTIAGO.
A história de José Júlio da Costa
não se resume só ao homem que matou um
Presidente da República, porque Sidónio
Pais era acima de tudo, pelas políticas que tomou,
e implementou, um ditador.
É também a história de toda uma
luta de classes, pela posse da terra, que assola o Alentejo
de tempos a tempos.
É a luta dos que não têm terra,
em oposição aos que a têm e não
a desfrutam, ou não dão trabalho a quem
precisa.
É também a história de como toda
uma população, de um dia para o outro,
se viu despojada dos mínimos meios de subsistência,
a que estava habituada porséculos de vivência
com a usual posse de terra.
Tal uso, foi alterado com as revoluções
liberais, da primeira metade do século XVIII,
e subsequentes alterações efectuadas no
sistema fundiário e venda dos baldios, o que
de um momento para o outro privou a população
mais pobre de alimentar o gado, apanhar lenha ou ter
a sua própria horta. Situação esta,
de privação do mínimo uso da terra
para as suas necessidades alimentares básicas,
que ainda está muito fresca na memória
dos sem terra Alentejanos, que eructa de tempos a tempos
com uma total negação à posse de
terra pelos seus actuais proprietários.
É neste enquadramento social que surge José
Júlio da Costa, como intermediário entre
as autoridades e os revoltosos do Vale de Santiago,
uma freguesia do Concelho de Odemira.
A população do Vale de Santiago no seguimento
de uma Greve Geral Nacional, convocada pela U.G.T. (Central
Sindical Anarquista), e motivada pelos “ventos
quentes” vindos da Europa do Leste, pela revolução
dos Sovietes na Rússia em Outubro de 1917, pegaram
nas suas rudimentares alfaias de trabalho e ocuparam
celeiros e propriedades, a reivindicar, basicamente
produtos alimentares e trabalho para sustento das suas
famílias.
José Júlio da Costa serviu como intermediário
na contenda, a pedido das autoridades, e convenceu os
trabalhadores a renderem-se, com a promessa de que não
seriam presos.
As autoridades políticas e policiais faltaram
à palavra dada a José Júlio da
Costa, de que, se os revoltosos se rendessem, não
seriam castigados, prendendo-os logo a seguir e deportando-os
para África.
José
Júlio da Costa, sentindo-se traído, jurou
vingar os seus conterrâneos do Vale de Santiago,
matando o ditador Sidónio Pais. Ainda o barco
que levava os revoltosos para África, para onde
tinham sido desterrados, pelos tribunais do regime,
não tinha chegado ao destino e já Sidónio
Pais jazia com dois tiros de pistola na estação
do Rossio (Lisboa), disparados por José Júlio
da Costa, que, assim, jurara vingar os seus conterrâneos
do Vale de Santiago, que confiaram na sua palavra de
que não seriam molestados caso se rendessem às
autoridades
Carta de JOSÉ JÚLIO DA COSTA.
Escrita dois dias antes do atentado, confessando o acto
que se propunha fazer ao seu amigo Francisco Ernesto
Goes, proprietário na Barquinha:
(1ª folha) Lisboa, 12 de Dezembro de 1918
Meu caro amigo Ernesto
Não avistei a pessoa que me
preocupa, espero que o encontro será no
dia 14, e oxalá possa eu prestar com o
meu sacrifício o fim que tantas almas
anceiam. Hoje falei com o Dr. Magalhães
Lima, elle está muito doente receio
muito pela sua vida que tão preciosa
é a esta nossa tão amada terra.
Não me foi possível falar-lhe no magno
assunto, nem talvez tenha já tempo de
o fazer. Deixá-lo depois que façam
o que o seu sentimento patriótico lhes designar
(2ª folha)
Não é tão fácil como me
pareceu a minha
Missão, mas com um pouco de arrojo posso
consegui-lo.
Levo do lado do meu coração o envolto
na nossa bandeira a estrofe que te
faço cópia. Mandei tirar fotografias
grandes no Grandella, não tenho tempo
de te enviar uma por isso te recomendo
que requisites depois alguma para
ofereceres aos nossos camaradas de
ideias. Não tenho ninguém compro-
metido no meugesto, só eu!
Abraça-te o teu amigo
José Júlio da Costa
JOSÉ JÚLIO DA COSTA E A MAÇONARIA
Na Vila de Garvão, diz-se que José Júlio
da Costa matou Sidónio Pais a mando da Maçonaria
e, que ao se escolher quem deveria realizar o acto,
José Júlio da Costa fo iescolhido porque
tirou a palha mais comprida, num sorteio através
de palhas presas na mão de uma pessoa.
Mas é improvável que, José Júlio
da Costa, fizesse parte, ou tivesse morto Sidónio
Pais a mando da Maçonaria.
Contudo,
José Júlio da Costa, nutria uma grande
simpatia pela Maçonaria e pelo seu Grão-Mestre,
Sebastião de Magalhães Lima, tendo inclusivamente
chegado à fala com ele e escrito-lhe uma carta
sem mencionar o magno assunto a que se propusera fazer,
carta esta encontrada nos bolsos do Grão-Mestre
quando foi preso.
De facto o Grão-Mestre da Maçonaria, depois
da morte de Sidónio Pais, passou um mau bocado,
tendo sido preso e agredido no Governo Civil nessa mesma
noite da morte da Sidónio Pais, sob a suspeita
de ele ou a sua organização, terem instigado
o atentado.
A suspeita da implicação da Maçonaria,
na Morte de Sidónio Pais foi na altura, largamente
alardeada pelos círculos Sidonistas da capital,
como a explicação mais lógica para
o atentado.
Esta pista, seguida por certos jornalistas e investigadores,
mostrou-se fútil e sem qualquer fundamento digna
de crédito, tendo contudo a semente germinado
no ideário popular.
Um dos motivos apontados, pelos defensores desta tese,
é o facto de Sidónio Pais ter sido Mação,
e a Maçonaria não perdoar aos seus antigos
membros que se mostrem renegados ou que abandonem a
organização, criando assim o mito que
Sidónio Pais teria sido morto por outro Mação
que seria José Júlio da Costa.
Outro motivo, apontado, que levaria a concluir a cumplicidade
da Maçonaria na morte de Sidónio Pais,
era o conhecido apoio dado pela Maçonaria à
República e aos republicanos que Sidónio
Pais vinha traindo e prendendo, tendo inclusivamente
a sede do “Grande Oriente Lusitano Unido”
(Loja Maçónica Portuguesa, vulgarmente
conhecida por Maçonaria), sido invadida e saqueada
oito dias antes do atentado, devido, precisamente, a
outro atentado à vida de Sidónio Pais
que saiu malogrado.
MAÇONARIA OU CARBONÁRIA?
A Maçonaria era/é uma organização
secreta, elitista e urbana, de que muito dificilmente
José Júlio da Costa faria parte.
Quando muito, e no caso de José Júlio
da Costa fazer parte de alguma associação
secreta, devido ao seu empenhamento político,
teria sido a Carbonária, esta sim um movimento
mais rural e com forte implantação nas
províncias.